‘Big Four’ de auditoria criam padrão para colocar ordem na sopa de letrinhas ESG

Em conjunto com Fórum Econômico Mundial, Deloitte, EY, PwC e KPMG criam framework que reúne o essencial dos sistemas já existentes

 


As quatro grandes firmas de auditoria e contabilidade globais e o Fórum Econômico Mundial divulgaram hoje um padrão global para tentar colocar ordem na sopa de letrinhas que impera nas métricas e reportes de questões sociais, ambientais e de governança (ESG) das empresas. 

Numa colaboração inédita, EY, PwC, KPMG e Deloitte criaram um conjunto de métricas baseadas em padrões já existentes, para tentar acelerar a convergência entre os principais padrões e trazer mais comparabilidade e consistência ao reporte de questões relacionadas à sustentabilidade. 

“É importante para nós ter um conjunto comum de padrões para levar efetivamente à mudança de comportamento”, disse Punit Renjen, CEO da Deloitte.” Nossa iniciativa visa tornar essas métricas algo a ser adotado de forma extensiva.” 

Ao todo, o padrão sugere 21 métricas principais em quatro escopos: governança, planeta, pessoas e prosperidade. As métricas e divulgações sugeridas partem de padrões como o do Global Initiative Report, o GHG Protocol, o Sustainability Accounting Standards Board (SASB) e o Task-Force on Climate Related Disclosures (TCFD). 

No relatório divulgado hoje, há inclusive um sistema de “de > para”, relacionando as divulgações exigidas com os respectivos padrões das quais elas derivaram.

Essas métricas principais incluem pontos já bem estabelecidas e mais adotadas pelas empresas nos reportes, e estão mais ligadas às atividades sobre as quais a companhia tem controle. 

Entre as métricas principais de governança, estão a composição de órgãos de governança e questões que impactam stakeholders. Já em “planeta”, os indicadores são mais amplos. A recomendação das Big Four é de divulgação da emissão de gases de efeito estufa, de acordo com o GHG Protocol. 

Além disso, o framework recomenda que as empresas reportem o grau de aderência ao TCFD, padrão que se consolidou para mensuração de riscos e oportunidades gerados pelas mudanças climáticas nos negócios, especialmente no setor financeiro. 

Entre as divulgações principais, estão ainda medidas de diversidade e inclusão dos funcionários e equidade na remuneração, além de contribuição econômica e gastos com pesquisa e desenvolvimento.

Além disso, há sugestão de outras 34 métricas expandidas, cuja medição e divulgação ainda são mais desafiadoras para o mercado e que, normalmente, dizem respeito a um escopo mais amplo da cadeia de valor, incluindo, por exemplo, fornecedores e clientes. 

Mirando o longo prazo

O projeto foi desenvolvido no âmbito do International Business Council do Fórum Econômico Mundial, que reúne mais de 120 CEOs globais e é liderado pelo CEO do Bank of America, Brian Moynihan.

As quatro firmas vêm trabalhando há dois anos na criação desse padrão, numa força-tarefa que teve início durante o encontro de Davos do começo de 2019. 

A ideia é incentivar as empresas do IBC a adotar o padrão já a partir do próximo ano e ir refinando conforme o necessário.  A grande dúvida é qual será a adesão das empresas à iniciativa.

Mas o apoio das empresas de contabilidade e auditoria que são consideradas autoridades no assunto e aconselham boa parte das grandes empresas nesse assunto aumenta a probabilidade de sucesso.

“O mais importante é que essas métricas permitem que os investidores olhem efetivamente o longo prazo, entendendo o impacto também em clientes, pessoas e na sociedade”, disse o CEO da EY, Carmine Di Sibio, em live promovida hoje pelo Fórum Econômico Mundial. 

O plano é chegar a um padrão universalmente aceito por investidores e empresas e influenciar reguladores locais ao longo do caminho, da mesma forma que aconteceu com os padrões contábeis tradicionais, disse o CEO da PwC, Robert Moritz. “Não buscamos perfeição, buscamos progresso, as melhores métricas para começarmos e irmos aperfeiçoando.” 

Em busca do padrão

Com o avanço da agenda do capitalismo de stakeholder, vêm pipocando as iniciativas para aglutinar os padrões de mensuração e divulgação de informações ESG.

Na Europa, a Comissão Europeia está revisando seu Non-Financial Reporting Directive.  A Iosco, que reúne os reguladores de mercados de capitais, uma espécie de CVM global, já disse que quer harmonizar os padrões de sustentabilidade e o próprio IFRS, responsável pelo padrão contábil tradicional, avalia ampliar seu mandato para incluir questões de sustentabilidade. 

Enquanto isso, as cinco instituições responsáveis pelos padrões de divulgação de sustentabilidade mais aceitos estão trabalhando em uma visão conjunta para as métricas. São elas: o Carbon Disclosure Project (CDP), o Disclosure Standards Board (CDSB), o Global Reporting Initiative (GRI), o Internacional Integrated Reporting Council (IIRC) e o Sustainability Accounting Standards Board (SASB). 

“O projeto do IBC é complementar [a essas iniciativas]  e pode formar os blocos naturais de construção de um sistema de reporte ESG único, coerente e global”, disseram os representantes da Big Four no relatório.