Banco BV promete destinar R$ 80 bi a operações com critérios ESG até 2030

Metas de compensar emissão de CO2 da frota financiada e de ampliar a diversidade de gênero e raça dos colaboradores completam trio de compromissos anunciados

 

O banco BV se comprometeu a destinar ao menos R$ 80 bilhões a operações com benefícios ambientais e sociais até 2030, o que inclui empréstimos e também operações estruturadas no mercado de capitais. 

O objetivo faz parte de um trio de compromissos ESG que o banco, antigo Votorantim, acaba de anunciar para o fim desta década.

Dentro dos R$ 80 bi estarão operações como financiamento para compra de carros elétricos e instalação de painéis solares residenciais, funding para o crédito educativo da fintech Pravaler e também parcelamento de exames de saúde na rede Dr. Consulta, por exemplo. 

Segundo o CEO, Gabriel Ferreira, em 2020 esse tipo de crédito representou desembolsos de R$ 4,5 bilhões do banco. Portanto, com a meta assumida, na prática o banco quer ao menos dobrar essa produção média anual nos próximos nove anos. 

“Hoje, esses desembolsos representam cerca de 5% da carteira e a nossa previsão é que representem um terço dela até 2030”, diz Ferreira. “E, como não temos o funding ilimitado dos depósitos à vista como os grandes bancos, isso significa que teremos que fazer escolhas.”

O banco tem atualmente uma carteira total de crédito de mais de R$ 70 bilhões.


Para qualificar os créditos como ESG, o BV usa uma metodologia própria que leva em conta três aspectos: um rating socioambiental e de governança, o segmento de atuação da empresa e o uso dos recursos. 

“Se uma empresa de energia com uma matriz a carvão pede capital de giro, eu nego. Mas se pede uma linha para investir em uma planta de energia limpa, eu aprovo”, exemplifica Ferreira. “A gente entende que a missão do mercado financeiro é impulsionar a migração. Se o mercado não apoia uma empresa em setor controverso, como ela vai fazer a transição?”

Diferentemente de outros bancos que anunciaram compromissos na mesma linha, como o Bradesco, o BV preferiu não usar a taxonomia verde da Febraban para enquadrar as operações sustentáveis.

A razão, diz Ferreira, é que o banco considera incompletas as metodologias que partem do Cnae das empresas, como é o caso da taxonomia da Febraban. O Cnae é a classificação da atividade econômica das empresas usada pelo IBGE e por órgãos de governo. O problema é que, da forma como está estruturada hoje, essa classificação não diferencia, por exemplo, empresas de geração solar ou eólica de outras que usam carvão.

Se os créditos enquadrados como ESG representam cerca de 5% da carteira, Ferreira diz que empréstimos controversos respondem por 3%. “São um rescaldo de operações aprovadas no passado, uma carteira que está em run-off.”

Neutralizar e incluir

O segundo compromisso diz respeito à meta já antecipada no ano passado de neutralizar as emissões de CO2 da frota de veículos financiada, a principal atividade do BV. O banco começou a compra de créditos de carbono no primeiro trimestre e até agora 270 mil carros tiveram as emissões compensadas.

“Temos mais interesse em apoiar a migração da frota para energias limpas, financiando carros híbridos, do que neutralizar as emissões. Mas, por mais que o banco estimule essa migração com taxas promocionais, é um processo que demora, por isso optamos por neutralizar”, diz Ferreira. 

O terceiro pilar do compromisso são metas relacionadas à diversidade dos funcionários. Hoje, cerca de 35% dos 300 cargos de liderança do banco são ocupados por mulheres e a ideia é chegar a 50%. 

Ferreira diz que a meta será aplicada por nível hierárquico, o que significa que metade das superintendências e gerências terão que ser ocupadas por mulheres, mas também metade das diretorias — hoje, há apenas 3 mulheres entre os 18 diretores. Neste ano, o conselho de administração do BV passou a ter uma mulher entre os seis membros, com a escolha da executiva Andrea Chamma.

Além disso, o banco quer elevar de 18% para 35% o percentual de negros no quadro de 4 mil funcionários. Não há compromissos relacionados à diversidade racial na liderança.

“Aqui temos um esforço a fazer que é anterior [ao da diversidade de gênero], de quebra de paradigmas e capacitação”, diz. “É muito mais cômodo contratar homens brancos formados pela GV, mas os talentos do futuro não se definem apenas pelas capacidades formais”, completa.

O banco tem feito parcerias com ONGs para dar acesso a negros, mas, para Ferreira, cabe ao próprio banco assumir o papel de oferecer a capacitação. “Temos que olhar para a base e entender quais são os bloqueios no caminho hierárquico.” 

Para as mulheres, diz, o problema não está no acesso, está na evolução na carreira e o banco identifica que o principal entrave à ascensão ainda é a maternidade. Algo que, segundo ele, está no radar para ser enfrentado. 

Paralelamente ao anúncio dos compromissos, a partir deste ano o BV também atrelou 20% da remuneração variável dos executivos a metas ESG. “Cada executivo tem cinco grandes metas e uma delas é ESG.”

O banco tinha planos de listar suas ações na B3 neste ano, mas há um mês cancelou o pedido de registro de companhia aberta e de distribuição de papéis.

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