Assédio e xenofobia: O grotesco caso do CEO da Zest Capital

 

(Atualizada em 22/03 para incluir posição da Zest Capital)

Histórias de assédio moral e discriminação são parte de uma triste realidade que assombra as mulheres no ambiente de trabalho. Um caso que veio à tona esta semana retrata esse cenário em cores vivas — e está chocando a comunidade de venture capital da América Latina.

Cinco dias atrás, vieram à tona áudios em que o fundador e CEO da Zest Capital, uma fintech do Peru, agride verbalmente, muitas vezes aos berros, a CFO da empresa, sua sócia e também esposa.

A história chegou ao Whatsapp da comunidade financeira brasileira porque a voz que destila misoginia em doses cavalares — e também xenofobia — é a do brasileiro Arthur Silva. O alvo das agressões, Flavia Becker, também é nascida no Brasil, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, e filha de mãe peruana, o que lhe dá dupla cidadania.

Silva e Becker moram no Peru há cinco anos, onde co-fundaram a Zest, uma espécie de micro-XP voltada a dar acesso a produtos de investimento a clientes de classe média e média alta, sob o slogan “democratizando o private banking”. 

Becker, que obteve uma ordem de restrição que impede Silva de chegar perto dela, tornou públicos em sua conta no Instagram alguns dos áudios com os abusos no fim da semana passada. O conteúdo é estarrecedor.

Num deles, gravado no fim de 2018, quando um dos dois filhos do casal tinha um mês, Silva berra palavrões para a mulher e reclama que não pode dizer ao cliente que ele não será atendido porque a mulher está amamentando.

Em outro, a chama de ‘vagabunda’ e ‘sub raça’, entre outros impropérios, enquanto Becker pede silêncio alegando que a filha está dormindo no mesmo ambiente.

Embora tenha escolhido o Peru para morar, formar a família (os dois filhos do ex-casal nasceram no país) e empreender, os áudios também revelam um forte sentimento de xenofobia em relação aos peruanos.

Num deles, grita, claramente descontrolado, que cansou de “escutar merda” de Becker e do “macaco cholo” Eduardo, aparentemente se referindo ao também sócio da Zest, Eduardo Galvez.

A palavra “cholo”, em espanhol, costuma ser usada para se referir, muitas vezes de forma pejorativa, a pessoas mestiças, com sangue índio. “Vocês dois são dois macacos baianinhos burros…dois peruaninhos, animal, cholinho (sic).”

A denúncia pública de Becker na semana passada atraiu apoio de diversas pessoas e entidades no país vizinho. A Endeavor do Peru, onde Silva era mentor, resolveu expulsá-lo da rede.

A Pecap, associação equivalente à brasileira Abvcap, que reúne os fundos de private equity e venture capital do Peru, soltou uma nota no domingo em que rechaça qualquer forma de violência contra a mulher e estimula a comunidade empreendedora peruana a não tolerar atitudes semelhantes.

O pronunciamento recebeu apoio institucional da Abvcap na tarde de hoje pela conta da associação no Linkedin. “Repudiamos toda forma de violência, assédio de qualquer tipo ou agressões contra as mulheres, seja em nosso meio, seja na sociedade como um todo.”

A Zest retirou o nome de Silva de seu site na internet e seu perfil no Instagram foi apagado. Até agora, sua página no Linkedin permanece ativa, com centenas de conexões com empresários e investidores brasileiros.

Em troca de mensagens com o Reset, Becker contou que ela e Silva se conheceram em 2013 no Uruguai, quando ambos trabalhavam na mesma empresa, e logo começaram a se relacionar. Os sinais de abuso não demoraram e vieram na forma clássica.

“Os primeiros sinais  de abuso foram ciúme excessivo, me afastar da família e amigos, e me dizer que tudo isso ele fazia pelo meu bem. Enquanto ele saía com os amigos, voltava bêbado constantemente e gritava comigo.” Os episódios eram seguidos de pedidos de desculpas e promessas de mudança.

Os dois se mudaram para o Peru em 2015 e abriram a Zest no início de 2016. Os abusos que se davam na esfera pessoal, segundo Becker, passaram também a fazer parte da rotina profissional. “Ele me convenceu a renunciar ao posto de CFO porque isso melhoraria a nossa relação e ele já não se irritaria tanto comigo e me prometeu um posto como chairman”, disse ela. “Quando renunciei, ele não cumpriu a promessa e retirou todo meu acesso à minha empresa.”

Embora tenha se separado de Silva na metade do ano passado e obtido a ordem de restrição em dezembro, Becker diz que resolveu agora tornar públicas as agressões porque o ex-marido vem exercendo “violência econômica” para tirá-la de vez do quadro de sócios da Zest e deixá-la sem recursos, ao mesmo tempo em que contratou uma renomada advogada para ter acesso aos filhos que, segundo ela, sofriam com os maus tratos psicológicos.

O Reset procurou Arthur Silva antes da publicação da reportagem e não teve resposta. Depois da publicação, a Zest informou que Silva foi afastado da direção da empresa e que a Zest não tem qualquer relação ou responsabilidade pelos atos praticados pelos colaboradores no âmbito pessoal. A empresa também afirmou rejeitar todos os atos de discriminação e violência, razão pela qual Silva foi afastado.