As criptomoedas querem ser verdes. Dá para chegar lá?

 

Não é só o preço do bitcoin que está em alta. A quantidade de energia que a criptomoeda consome no processo de mineração também não para de escalar, tornando cada vez mais difícil ignorar seu impacto negativo sobre o meio-ambiente.

De olho nas críticas crescentes, um grupo de órgãos de pesquisa e advocacy em energia e finanças lançou na semana passada um compromisso de descarbonizar o setor de criptomoedas — e de todas as tecnologias que envolvem blockchain — em tempo recorde. 

O Crypto Climate Accord tem cerca de 20 signatários, entre eles nomes como a maior gestora de criptoativos da Europa, a CoinShares, e a elétrica francesa Engie.

O compromisso é ter todos os ativos em blockchain do mundo alimentados por fontes de energia 100% renovável até 2025 e alcançar a neutralidade em carbono, incluindo emissões passadas, até 2040. 

Para isso, o setor está se comprometendo a desenvolver um padrão de contabilidade de código aberto para rastrear as emissões da indústria.

Se as promessas soam grandiosas, os detalhes do plano ainda são escassos. Os próprios signatários reconhecem que se trata, antes de mais nada, de um esforço conjunto para buscar soluções. A ideia é ter um conjunto de ideias para apresentar na próxima conferência do clima da ONU. 

Mas os desafios impostos pela própria estrutura dessa indústria são imensos — e mostram que vai ser preciso muita criatividade e inovação para tirar a promessa do papel. 

Um dos principais obstáculos é a própria dominância do bitcoin, que responde por mais da metade da capitalização de mercado das criptomoedas hoje. 

A criptomoeda mais popular do mundo tem um altíssimo consumo de energia por causa do seu processo de mineração, que é a maneira de gerar novas unidades da moeda. 

Apenas a sua rede consome cerca de 140 terawatts por ano, o que é mais do que todo o consumo de países como Suécia e Holanda e cerca de 25% do gasto energético anual do Brasil, de acordo com o Cambridge Bitcoin Electricity Consumption Index.

A questão é que o bitcoin é propositalmente ineficiente — um problema que a energia renovável não resolve. 

Se as moedas tradicionais são garantidas pelos bancos centrais, no caso das criptomoedas a confiança das pessoas se baseia na tecnologia blockchain, que permite um registro público das transações virtualmente impossível de fraudar.  

O problema para o meio ambiente é que o blockchain do bitcoin é baseado em algo chamado ‘proof of work’, em que computadores em todo o mundo (os ‘mineradores’) competem para adicionar novos blocos de transações monetárias ao registro público, resolvendo enigmas matemáticos extremamente difíceis — o que consome muita energia.

Segundo pesquisa da Universidade de Cambridge, 60% de toda a energia consumida nesse processo vem de combustíveis fósseis.

O Ethereum, outro criptoativo muito popular, também usa ‘proof of work’, mas já há notícias de que pretende fazer a transição para outro modelo.

Para além do bitcoin

Outras criptomoedas usam tecnologias de blockchain diferentes da utilizada pelo bitcoin e que consomem bem menos energia, o que pode tornar o uso de renováveis mais plausível. 

Mas ainda assim o compromisso climático do setor tem diversos outros desafios. 

Um deles é que a tecnologia de blockchain foi pensada para ser descentralizada. E, nesse sentido, convencer todo mundo a embarcar na meta e adotar uma mecanismo único para rastrear as emissões é por si só um desafio colossal. 

Mais do que isso: simplesmente não há energia renovável para todo mundo. As fontes limpas hoje respondem por cerca de 30% da eletricidade gerada globalmente e mais energia verde para criptomoedas significa que outros setores da economia podem não se descarbonizar. (É por isso que, em geral, as metas climáticas de setores tradicionais se apoiam não apenas no uso de energia limpa, mas também no aumento da eficiência energética dos processos.) 

O custo ambiental já está colocando a indústria de cripto em rota de colisão com o plano do presidente Xi Jinping de atingir a neutralidade de carbono antes de 2060. O governo chinês anunciou recentemente que todas as operações de mineração na Mongólia serão fechadas até o fim do mês porque estão impedindo que a região atinja seus objetivos de descarbonização. 

Por conta dos preços baixos da energia, incluindo renováveis, cerca de metade do bitcoin do mundo é minerado na China.