Apesar de você, hoje é ESG

Gustavo Pimentel, diretor da Sitawi, escreve que o tsunami ESG não está correlacionado à pandemia, mas começou a ser construído bem antes, por pressão internacional e de famílias de elevado patrimônio

 

O crescimento da integração ESG nos investimentos e, por consequência, nos modelos de negócio e gestão das companhias, vem sendo creditado à emergência da pandemia de covid-19. Estamos diante de um caso clássico no qual se confunde correlação (temporal) com causalidade.

A percepção da chegada do ESG ao mainstream de investimentos no Brasil, que temos visto em 2020 em plena pandemia, vem sendo costurada há pelo menos 20 anos, e ganhou tração a partir de 2018.

A primeira explicação vem do front externo: ESG é praticado nos países desenvolvidos desde os anos 1970, sob a sigla SRI – Socially Responsible Investing. O povo raiz ainda gosta dessa sigla, que foi repaginada como Sustainable & Responsible Investing.

Inicialmente focado nas questões ambientais e sociais, o SRI foi malandramente fundido com temas de governança corporativa, entendidos na época como mais materiais para a performance dos investimentos, possibilitando sua entrada no mainstream como ESG.

A narrativa de que ESG gera melhores retornos ajustados a risco começou a ser comprovada por estudos acadêmicos e backtesting das carteiras dos pioneiros. Enquanto SRI era questão de ética, ESG era questão de alfa. Nada mais sedutor do que se dar bem sem fazer o mal.

Os investidores institucionais, fundos de pensão, endownments, seguradoras, entre outros, estimulados pelo PRI, os Princípios para Investimento Responsável, materializaram a integração ESG através de alocação estratégica e mandatos ESG para seus asset managers.

A conversão ESG de gigantes institucionais, como Calpers, Norges Bank, PGGM, GPIF, chacoalhou o mercado e ajudou a converter os gigantes do asset management, como Blackrock, State Street, Amundi, e as assets dos bancões, processo que ocorreu de forma expressiva entre 2006 e 2015.

Como o Brasil (ainda) não é uma ilha, nossos gestores de recursos com passivo internacional começaram a perceber a demanda.

Como me disse um gestor independente em 2018, ao contratar a Sitawi para consultoria e research ESG: “eu ouço falar de ESG há 15 anos, e sempre busquei fugir do assunto. Mas, agora, toda conversa de captação internacional passa por qual é nossa abordagem ESG, sem contar os questionários de due diligence, que vão fundo no tema. Eu preciso virar um especialista ESG: seja para integrar de fato na gestão ou para explicar ao meu cotista porque não o faço.”

As companhias brasileiras com base acionária internacional já sentiam essa pressão há ainda mais tempo. Mas a massa crítica de investidores ESG brasileiros de fato demorou a ser formada. A tese de que os investidores institucionais brasileiros criariam essa demanda não se confirmou. Os fundos de pensão brasileiros, apesar de engajados no tema desde 2004 (quem lembra dos Princípios de Responsabilidade Socioambiental nos Investimentos Ethos-Abrapp?), não geraram a demanda ESG para seus asset managers.

Alguns motivos teriam sido a alta prevalência da gestão interna, principalmente nos maiores fundos de pensão; a pequena alocação em renda variável; e, para alguns fundos, a agenda de compliance e integridade interna, após a emergência de vários escândalos de corrupção. Nem a Resolução 3792/2009, que estimulava a transparência sobre o uso de fatores ESG nas políticas dos fundos, conseguiu mover o setor.

Bem-vindo, impacto

Quem iria imaginar que a ascendência do investimento de impacto fosse catalisar ESG no Brasil?

Definido como investimentos com intenção de gerar impacto socioambiental positivo e retorno econômico, o conceito é ainda mais sexy do que ESG: se dar bem fazendo o bem. Alguns dizem que foi cunhado por fundações filantrópicas ali por 2007 ou 2008.

Mas o povo raiz do SRI e do ESG vai se lembrar que era praticado como Community Investing (EUA) ou Thematic Investing (Europa) já nos anos 1990, ou seja, impacto 1.0 era uma abordagem ESG, assim com filtro negativo, best in class, integração ou stewardship.

O investimento de impacto seduziu os investidores pessoa física de altíssimo patrimônio no Brasil, a partir de 2015. Representados por seus (multi) family offices, wealth managers e private banks (menção especial a Wright Capital e Pragma pela liderança no tema), se frustraram ao perceber que só havia produto de impacto na classe de ativos de venture capital, que tipicamente é uma fração bem pequena de sua alocação estratégica.

Se contentaram, então, em buscar produtos ESG, ou pelo menos produtos geridos por assets com boas capacidades ESG. E tampouco encontraram muito opção fora dos bancões. Como diz o ditado: “se não tem tu (impacto), vai tu mesmo (ESG), ou talvez não vá ninguém”.

Essa demanda do wealth local ajudou a despertar o interesse das assets independentes a partir de 2018.

Se antes as meninas do Leblon (e Faria Lima) não olhavam para a gente, entre 2018 até o início da pandemia fomos convocados por dezenas de gestoras para tomar Nespresso, beber água mineral em garrafinha plástica e explicar ‘esse tal de ESG’.

Inicialmente, as gestoras de private equity tomaram a dianteira (aliás, desde 2014), contratando serviços especializados. As gestoras de renda variável e crédito em geral decidiam ‘tocar internamente’, até que algumas se deram conta que ESG é complexo e multifacetado, e começaram a contratar serviços em 2019 para acelerar a curva de aprendizado.

Esse interesse era crescente, atingiu seu pico entre janeiro e fevereiro de 2020, e despencou entre março e maio 2020, o pico da pandemia.

A partir de julho 2020, com maior visibilidade dos efeitos da pandemia no mercado, os investidores brasileiros retomam seu interesse na agenda. Por conta do represamento de 3 meses, bem como da maturação de iniciativas e produtos desenhados em 2018 e 2019, gerou-se a percepção de que a onda ESG virou tsunami no meio da pandemia e por causa dela.

Obrigado, juros baixos

A onda ESG brasileira também contou com um pouco de sorte.

No país dos juros estratosféricos no qual investir em título público e fundo DI garantia cumprimento de metas atuariais e retornos acima da bolsa, para que integrar ESG?

Aliás, como integrar ESG na decisão de investimento se eu apenas escolho indexador e prazo de títulos públicos de um único emissor (Brasil)? Ou quando se sofisticava um pouco mais com estratégias multimercado e posições direcionais em moedas ou bolsa, sem olhar para ativos da economia real?

O fim da farra do DI com migração de alocações para renda variável, crédito privado, infraestrutura, private equity e imobiliário abre um mundo de possibilidades para integração ESG. Seja por questões de ética ou questão de alfa. Não à toa, são investidores dessas classes que estão desenvolvendo suas capacidades e produtos ESG no momento.

Para não dizer que desperdiçamos uma crise, a pandemia ajudou, sim, a evidenciar a importância do ‘S’, o social do ESG. Mas isso é assunto para outro artigo.

* Gustavo Pimentel é diretor executivo da Sitawi, provedora de consultoria e research ESG. Atua com ESG no mercado financeiro e de capitais desde 2004. Foi eleito um dos três profissionais que mais contribuíram para o avanço do Investimento ESG (2019) e melhor analista ESG do mundo (2016) pela Extel Independent Research in Responsible Investment.