Anbima quer dizer o que é ou não um fundo sustentável

Entidade do mercado de capitais está começando um trabalho que vai culminar com a classificação de produtos e a autorregulação do mercado

 

Com a profusão de produtos de investimento sustentáveis e de impacto que começa a emergir no mercado local, o investidor se vê confuso. É difícil saber o que diferencia uma estratégia dita sustentável, ou ESG, de outra. Ou, pior ainda, se está se levando gato por lebre.

Para tentar organizar a balbúrdia do bem, a Anbima colocou em marcha uma agenda para criar uma classificação desses fundos no país e, no limite, chegar à autorregulação do mercado de produtos e serviços sustentáveis.

“No momento em que esse tema ganha relevância, queremos cuidar para que não se perca nada pelo caminho, sobretudo a confiança do investidor”, diz Carlos Takahashi, presidente da BlackRock no Brasil e apontado para coordenar o grupo consultivo de sustentabilidade da Anbima. 

“Há um intenso lançamento de produtos e gestoras se manifestando e precisamos ter a segurança de que o patrimônio é efetivamente sustentável.”

Takahashi explica que a taxonomia de fundos brasileira deverá incorporar o aprendizado de iniciativas em estágio mais adiantado em outros países, especialmente na Europa. Na semana passada, o grupo da Anbima teve discussões com representantes da França, por exemplo.

Ainda é cedo para adiantar que cara terá a classificação à brasileira. Takahashi diz que haverá um cuidado para retratar adequadamente os produtos, porém com uma linguagem amigável para o investidor comum. A estimativa é que a classificação saia no fim do ano que vem.

Embora o objetivo final seja entregar a classificação e a autorregulação, há um grande trabalho anterior a ser feito para se chegar lá. “Não adianta fazer a classificação agora, com o conhecimento disponível. Precisamos, antes, entender a indústria e construir esse conhecimento”, diz ele.

O primeiro item da agenda é fazer uma pesquisa para entender como o mercado tem se posicionado em relação à incorporação de fatores ESG (ambientais, sociais e de governança).

“Queremos ir além do pragmatismo e entender a mentalidade de quem está no mercado. Esse compromisso se dá apenas no nível dos produtos ou há um envolvimento com a agenda ESG enquanto corporação?”, diz Takahashi.

A ideia é incluir nas entrevistas o ‘sell side’ e o ‘buy side’ do mercado, ou seja, quem oferta ativos sustentáveis e os gestores dos fundos, que compram esses ativos para suas carteiras. “Tem toda uma discussão de rating, precificação, recomendação, análise e outras derivadas que queremos incluir na conversa.”

Consultorias e mundo acadêmico serão envolvidos nesse processo, que deve resultar na atualização do Guia ASG da Anbima, com um retrato mais amplo da indústria.

O segundo ponto na agenda é melhorar a base da dados de fundos sustentáveis efetivamente, para poder construir a classificação em cima dela. 

Aqui, o objetivo é identificar os fundos que incorporam critérios ESG de forma transversal, os fundos temáticos (verdes, sociais ou de governança), até chegar aos fundos de impacto. Esse levantamento já está em andamento e deve ser concluído no primeiro semestre de 2021.

Para não ficar isolada no trabalho de desenvolver a taxonomia, a Anbima tem começado uma interlocução com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e outras associações, como Abrapp (fundos de pensão), e órgãos reguladores, como Previc (previdência privada).

Paralelamente a tudo isso, o grupo quer conduzir uma agenda de educação dos profissionais de mercado, inclusive incorporando a avaliação de critérios ESG às certificações feitas pela Anbima.

“Já que o ESG está crescendo e há muita gente interessada, precisamos ajudar quem está olhando a entender que não se trata apenas de uma oportunidade de negócio.” 

Além de Takahashi, ou Cacá, como é conhecido no mercado, integram o grupo representantes dos maiores bancos, como Marcelo Nantes, da Bradesco Asset, e Luzia Hirata, da Santander Asset; representantes de gestoras independentes, como Guilherme Bragança, da JGP, Carolina da Costa, da Mauá Capital, e Roberto Leuzinger, da Vinci Partners; e de family offices, como Fernanda Camargo, da Wright Capital, e Jan Karsten, do Julius Baer.

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