Amaz, a aceleradora em busca do unicórnio da Amazônia — e os investidores por trás dela

Com fundo de R$ 25 milhões, aceleradora comandada por Mariano Cenamo quer investir em 30 startups da bioeconomia até 2025

Amaz, a aceleradora em busca do unicórnio da Amazônia — e os investidores por trás dela
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Uma aceleradora de startups está desbravando a floresta em busca de potenciais unicórnios amazônicos e quer atuar como catalisadora para um ecossistema de novos negócios da bioeconomia na região.

Mas, no ‘Amazon Valley’, tão importante quanto o crescimento da receita é aliá-la à conservação e à valorização da floresta.   

A recém-criada Amaz é uma evolução do programa de aceleração da Plataforma Parceiros da Amazônia (PPA), um hub de ação coletiva que une ONGs e setor privado, e que nos últimos dois anos já acelerou cerca de 12 empresas, viabilizando R$ 5 milhões em investimentos. 

Mas, enquanto no modelo anterior o matching entre empresa e investidor era feito caso a caso, a Amaz já nasce com uma estrutura financeira consolidada para atingir mais escala: um fundo de R$ 25 milhões para investimento em empresas ‘early stage’, a serem desembolsados nos próximos cinco anos, o primeiro voltado exclusivamente para a região. 

“Queremos negócios inovadores que tenham potencial de crescimento rápido. Precisamos urgentemente de uma referência na Amazônia”, diz Mariano Cenamo, que estava à frente do programa de aceleração do PPA e agora é CEO da Amaz. “Hoje há pouquíssimas referências que inspiram empreendedores a ousarem focar em negócios de impacto na Amazônia.”

Num ecossistema ainda pouco desbravado, o modelo financeiro é amparado num mecanismo de ‘blended finance’, em que o capital filantrópico entra para mitigar o risco e alavancar os recursos de investidores que buscam retorno mais compatível com as taxas do mercado. 

Do total do fundo, R$ 12,5 milhões vêm da filantropia, com doações encabeçadas por Fundo Vale, Instituto Humanize, Instituto Clima e Sociedade (iCs), Good Energies Foundation e Fundo JBS pela Amazônia. 

Da outra metade, de investidores de mercado, 90% já estão captados, afirma Cenamo. 

Entre os investidores estão empresários da região já bastante envolvidos com a causa do empreendedorismo local, como Denis Minev e Ilana Minev, das Lojas Bemol, e Átila Denys, advogado e empresário paulista radicado em Manaus desde 1978 e um dos sócios do escritório DD&L. 

A Amaz também trouxe investidores de impacto, como Fernando Russo, herdeiro do Grupo Fleury e fundador da Meraki Impact, fundo voltado para catalisar negócios regenerativos em alimentos e florestas.

E furou a bolha, colocando na mesa nomes familiares à Faria Lima, como Fersen Lambranho, sócio e chairman da firma de private equity GP Investimentos. 

“Um dos maiores desafios da Amazônia é proporcionar oportunidade para fixar os talentos humanos na região. Mais que o componente financeiro, o investimento tem o papel de estimular o empreendedorismo na região, considerando todas as suas particularidades”, disse Lambranho ao Reset. “Alguém tem que começar esse ciclo e os investidores desse primeiro fundo devem ter claro que esse é o objetivo maior.”

Encurtando o vale da morte 

Como ainda não há abundância de investidores-anjo, aceleradores ou fundos de inovação na Amazônia, as empresas acabam caindo num vale da morte mais extenso que o das startups da tecnologia. 

E é esse período que a Amaz quer ajudar as empresas a atravessar. 

“Nosso foco é pegar o negócio nesse early stage, alavancá-lo com conhecimento, rede de relacionamento, capital e principalmente a construção da tese de impacto”, diz Cenamo. “Para nós, acelerar o negócio não é só fazer ele crescer financeiramente. A gente quer que ele entregue muito mais impacto e saiba comunicar isso.” 

A Amaz quer investir em 30 negócios de impacto até 2025. Serão acelerados seis por ano, com investimento de até R$ 600 mil cada. A primeira chamada já está aberta e vai até 28 de maio. 

O acompanhamento do negócio é mais longo que em outras aceleradoras, de cinco anos. A ideia é preparar as empresas para uma nova rodada de captação com investidores privados, na casa de R$ 2 milhões a R$ 5 milhões. 

Além da fase de investimento, há mais cinco anos para saída. A expectativa é que o fundo de R$ 25 milhões seja capaz de alavancar outros R$ 50 milhões em aportes futuros nas mesmas startups até 2030. 

Experiência

As 12 startups que já foram investidas pelo PPA seguem no portfólio da Amaz para acompanhamento pelos próximos anos. 

Entre elas está a Manioca, uma empresa de alimentos fundada em 2014 que comercializa produtos baseados em ingredientes locais, como geleia de priprioca e taperebá, doce de cupuaçu e molho de tucupi.

Acelerada e investida pelo programa em 2019, a companhia acaba de fechar um aporte de R$ 1 milhão com um fundo da Mirova, braço de investimento sustentável da francesa Natixis. 

“O programa de aceleração foi fundamental para a Manioca, tanto pelas dificuldades de distância e logística, quanto para o desenvolvimento da cadeia produtiva”, disse a CEO Joanna Martins, em live de lançamento da Amaz. “Boa parte dos nossos fornecedores é de agricultura familiar e eles não estão prontos logo de início, é preciso trabalhar em parceria.”

Na experiência dos últimos dois anos, Cenamo disse que é possível identificar dois perfis opostos entre os negócios acelerados. 

No primeiro, estão empreendedores super capacitados, com modelos de negócio já relativamente bem desenhados, contatos e algum dinheiro, em que a maior parte do trabalho é exatamente arredondar e garantir a perenidade da tese de impacto. 

No segundo, há projetos que vêm de empreendedores sociais, cooperativas e até ONGs. Para eles, o pacote de apoio está muito mais voltado a melhorar a gestão financeira, comercial e de organização do negócio. 

“Ambos os perfis têm grandes desafios”, pontua Cenamo. 

Desafios logísticos

Outro ponto nevrálgico são as dificuldades logísticas e de comercialização. Na região, as operações de transporte, armazenamento, venda e ecommerce têm custos mais maiores e, individualmente, os negócios têm dificuldade de negociar com parceiros comerciais grandes — não raro caindo na mão de representantes que cobram taxas abusivas. 

“Coletivamente, quando a gente pode apoiar e negociar os preços com galpões de armazenamento e empresas de transporte, conseguimos reduzir bastante os custos da operação”, diz Cenamo. 

A Amaz tem também uma parceria com o Mercado Livre para venda de produtos das aceleradas na plataforma, além de oficinas de comercialização, marketing digital e pacotes de benefícios, que incluem pacotes de mídia, com anúncios gratuitos no marketplace. 

Mas além do apoio financeiro e operacional, a aceleradora tem um importante efeito de rede — nesse ponto, talvez mais crucial do que em qualquer outra iniciativa de apoio a startups. 

“O programa nos conectou com a experiência de outros empreendedores da região. Antes, a gente achava que estava sozinho”, diz Martins, da Manioca. 

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