Allbirds lança nova moda: o selo de “IPO sustentável”

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Com tênis feitos de lã merino que viraram febre no Vale do Silício — e que inspiraram a brasileira Yuool, figurinha carimbada nos pés de startupeiros e farialimers —, a americana Allbirds fez da sustentabilidade um dos seus principais motes. 

Agora, prestes a fazer seu IPO, a companhia quer lançar uma nova moda: um framework específico e verificável por consultorias independentes para validar um selo de “oferta de ação sustentável”, ou SPO, na sigla em inglês. 

“Nossa visão é que o IPO da Allbirds vai estabelecer um caminho que poderá ser usado por outras companhias no futuro”, afirma a empresa no prospecto da oferta, que foi arquivado ontem na Securities and Exchange Commission (SEC). “Acreditamos que a designação vai ajudar a identificar companhias líderes em ESG assim que elas entram no mercado público de ações.” 

O espírito é trazer para o mercado de ofertas de ações o que hoje já existe para o mercado de dívida, em que emissões verdes ou sustentáveis têm parâmetros específicos, validados por consultorias independentes nos chamados pareceres de segunda opinião. 

Check List 

A ideia partiu da BSR, uma rede de apoio ao desenvolvimento empresarial sustentável bastante atuante nos Estados Unidos (ou, para fazer o paralelo com o mercado brasileiro, uma espécie de mistura de Instituto Ethos com CEBDS). 

A Allbirds topou ser o caso piloto. 

No framework do “IPO sustentável”, a primeira exigência é já sair com um rating ESG de “uma consultoria amplamente conhecida” — e estar no terço superior do universo de cobertura dessa consultoria.

É um tema que, de cara, deve trazer alguma polêmica, já que hoje cada consultoria ESG tem um critério para rating e não raro uma companhia muito bem avaliada por uma firma acaba sendo mal avaliada por outra. 

Outros parâmetros são mais objetivos. As companhias têm que se comprometer a reportar fatores ESG específicos em seus relatórios anuais, além de atender ao Task Force on Climate Related-Disclosures (TCFD), framework para avaliar os riscos e oportunidades climáticos de cada negócio e que está se consolidando entre as empresas de capital aberto. 

As empresas que quiserem sair com selo de IPO sustentável precisarão também reportar suas emissões de gases de efeito-estufa, nos escopos 1, 2 e 3 — o que inclui emissões diretas e também de toda a cadeia de valor —, com auditoria externa para os números, até seis meses depois da oferta. 

Além disso, precisarão se comprometer com a neutralidade de carbono até 2040, com metas alinhadas ao cenário de aquecimento global de até 1,5ºC e compromissos intermediários para, no máximo, até 2030. 

Na frente social, os requerimentos vão desde metas de diversidade de gênero e raça, até o acompanhamento de diferenças entre os salários mínimo, máximo e médio dentro da organização, além de verificação das práticas trabalhistas de toda a cadeia de fornecimento. 

No caso da Allbirds, a adesão ao framework que acaba de ser desenvolvido foi atestada pela ISS, que já dá pareceres no mercado de emissões de dívida. 

Quem disse? 

Os critérios foram estabelecidos por um conselho consultivo coordenado pela BSR, que inclui representantes de empresas, investidores, provedores de frameworks ESG, agências de rating, advogados e ONGs. 

A Allbirds, no entanto, teve voz ativa. Há dois representantes da companhia no conselho, o CFO e a head de sustentabilidade, além de dois assentos para a asset britânica Baillie Gifford, uma das principais acionistas da fabricante de calçados. 

“O emissor e certos parceiros na transação do primeiro SPO facilitaram a formação do conselho consultivo e, juntos, participaram das discussões”, informa a BSR no site sobre o novo framework.

O plano, diz a BSR, é que o framework e os critérios para emissão sejam transferidos para uma outra entidade, como uma “provedora de infraestrutura de mercado de capitais” — leia-se Bolsa de Valores –, que poderá “desenvolver mais a estrutura de governança para as ofertas sustentáveis e facilitar mais refinamentos no critérios.”

As credenciais da Allbirds

Um dos expoentes do mercado de direct-to-consumer, de marcas nativas digitais com distribuição própria via canais online, a Allbirds vem com um mote de “better things in a better way”. 

Nos seus produtos, a companhia substitui poliéster e tecidos sintéticos, derivados de petróleo e os mais usados na indústria de artigos esportivos, por materiais naturais e afirma que seus pares de tênis têm uma pegada de carbono em média 30% menor que a das concorrentes.  

O solado dos calçados é feito com um “EVA Verde”, fabricado a partir de cana de açúcar, e desenvolvido em parceria com a brasileira Braskem, disse a empresa no prospecto. 

Além da lã de ovelha que vai na maior parte de seus tênis, a companhia também está desenvolvendo outros tecidos renováveis, como uma fibra feita a partir de eucalipto que demandou dois anos de pesquisas e testes e que está sendo utilizada na fabricação de uma linha de roupas esportivas lançada em maio deste ano. 

As emissões de carbono são compensadas com créditos. A Allbirds tem certificado de empresa B praticamente desde a fundação, em 2016. 

No vermelho 

Ao mesmo tempo em que tenta deslocar as grandes rivais — notadamente a Nike e a Adidas — a Allbirds ainda não deu lucro desde que foi fundada e no prospecto a empresa afirma que não vê a possibilidade disso acontecer num futuro próximo. 

Apesar de ter nascido com vendas diretas online, segmento que avançou nada menos que 74% de 2018 a 2020, a Allbirds vem aumentando sua rede de lojas físicas. Hoje são 27 unidades, a maior parte dos Estados Unidos, e o plano é abrir mais centenas. 

A Allbirds levantou US$ 100 milhões em uma rodada de captação de série E em setembro do ano passado, que a avaliou em US$ 1,7 bilhão. Outra rodada, em 2018, tinha avaliado a companhia em US$ 1,4 bilhão. Entre os acionistas estão a T Rowe Price e a Franklin Templeton. 

A companhia ainda não divulgou o quanto pretende captar com o IPO e nem qual a avaliação almejada. 

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