Alicerce escorrega na cartilha do impacto e tenta corrigir a rota

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Pega no contrapé pela pandemia de covid-19, a startup de reforço educacional Alicerce dispensou abruptamente seus 530 funcionários, trazendo à tona a discussão sobre a responsabilidade e a sustentabilidade de alguns modelos de negócio de impacto social.

Por conta do vírus, a Alicerce se viu obrigada a fechar todas suas 49 unidades em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná e mandar 2 mil alunos para casa. Uma segunda rodada de captação de recursos de investidores engatilhada para o fim de março foi cancelada em meio à crise.

A decisão de suspender os contratos dos colaboradores, tomada de forma intempestiva pelo CEO Paulo Batista, passou a valer no dia 20 de março, foi comunicada em vídeo distribuído pelos grupos de Whatsapp da empresa e caiu muito mal.

Espinha dorsal do negócio, os chamados “líderes” são jovens nascidos na periferia e que conseguiram entrar em universidades de ponta. Eles não têm registro em carteira: são microempreendedores individuais, MEI, com contratos de prestação de serviço com a Alicerce e, por isso, não têm direitos trabalhistas como férias, décimo terceiro ou licença médica remunerada.

No mundo todo, a pandemia e a necessidade de isolamento social jogaram luz sobre as relações trabalhistas muitas vezes precárias e sem salvaguardas para colaboradores praticadas pelas empresas, em especial as que baseiam seus modelos de negócios nos chamados ‘gig workers’ (trabalhadores por conta própria), como Uber, Rappi ou iFood.

Para uma empresa que se define como de impacto social, tanto pior.

A medida causou revolta, especialmente no núcleo paranaense da Alicerce, onde a empresa já vinha enfrentando problemas. O desligamento dos colaboradores chegou à mídia em reportagem do site “The Intercept Brasil” no dia 1 de abril.

“A suspensão dos contratos criou em todos os colaboradores uma sensação de desamparo”, diz um colaborador. “A comunicação da interrupção foi abrupta. Ele (Paulo) tem a cultura do mercado financeiro e quis estancar as perdas rapidamente. Mas fica a lição de que o mundo da educação e dos negócios sociais é diferente”.

Antes de fundar a Alicerce, Paulo foi executivo do mercado financeiro e CEO da Cremer Dental, vendida para a americana Henry Schein em 2017.
“A questão era o que fazer num negócio que viu sua receita zerar do dia para a noite e que só tinha caixa para mais dois meses de operação”, disse um dos investidores.

Mergulhada numa crise de reputação, a empresa teve que entrar em modo de gerenciamento de crise — e o dinheiro apareceu. Depois de muitas reuniões virtuais, alguns dos acionistas decidiram fazer um aporte para estancar a sangria. “Precisamos proteger as pessoas”, disse um dos investidores.

Além de Paulo Batista, foram investidores-anjo da Alicerce os empresários Jair Ribeiro e Eduardo Mufarej e o apresentador Luciano Huck. Em outubro, a empresa levantou R$ 20 milhões em sua primeira rodada de captação para escalar o negócio e abrir 70 unidades até meados deste ano.
Dividiram o cheque os fundos de venture capital Canary e Valor Capital, além de investidores como Arminio Fraga, David Feffer, Luiz Fernando Figueiredo, Wolff Klabin e Daniel Goldberg.

Paulo Batista diz que os termos dos aportes que os sócios estão fazendo agora, como quem participará e valores, não são públicos. “Mas serão feitos tantos quantos necessários para custear a remuneração dos colaboradores durante a pandemia”, afirmou em conversa com o Reset.

A empresa vai garantir uma renda mensal de até R$ 1200 a cada um dos 530 colaboradores, independentemente de nível hierárquico. Cada um vai decidir quantas horas quer trabalhar, em atividades internas, até um teto de quatro horas diárias.

A injeção de dinheiro também vai cobrir outros custos, como o de aluguéis, e garantir os investimentos necessários para a retomada das operações do Alicerce quando o isolamento acabar. Só com colaboradores, serão desembolsados R$ 600 mil por mês parado.

“Isso mostra o compromisso de todos para buscar o melhor para nossos colaboradores”, disse Batista.

O episódio traz uma reflexão: até que ponto é válido criar negócios sociais dependentes de relações trabalhistas que deixam os colaboradores vulneráveis?

A Alicerce mira famílias das classes B e C que não têm com quem deixar os filhos quando não estão na escola e se propõe a suprir a precariedade do ensino público do país. Oferece cinco horas de aula por dia, cinco dias por semana, no chamado contraturno, com disciplinas como português, matemática, inglês e computação, por cerca de R$ 150 por mês.

“Na prática, esse modelo de colaboradores pessoa jurídica é o que permite que a Alicerce exista e cobre o preço que cabe no bolso das famílias atendidas”, diz uma pessoa ligada à empresa.

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