Ações globais podem cair até 20% com maior taxação de carbono, aponta estudo

Mais que uma profecia estática, estudo feito pela asset britânica Kempen Capital Management é um teste de estresse para mostrar como os investidores estão negligenciando os riscos climáticos

 
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(Atualizado às 17h00*) — O mercado global de ações poderia cair até 20% se houvesse, de repente, um aumento de US$ 75 por tonelada nos preços de carbono nas regiões que já praticam algum tipo de taxação, aponta uma análise feita pela asset britânica Kempen Capital Management, que gere € 86 bilhões. 

Mais que uma profecia estática, trata-se um teste de estresse para mostrar como os investidores estão negligenciando os riscos climáticos nos seus modelos de valuation.

Na prática, a gestora vê tanto custos quanto oportunidades na descarbonização que não estão precificados nos mercados de ações.

“No caso do risco climático, há inclusive um forte potencial de alta; por exemplo, se houver um imposto de carbono mais alto, esse dinheiro precisará ser gasto, por exemplo, em infraestrutura verde e energia limpa”, aponta Nikesh Patel, chefe de estratégia de investimento da gestora. “Novos produtos, serviços, infraestruturas e propriedades intelectuais terão que ser criadas para oferecer aos investidores a chance de retornos atrativos.”

O modelo da Kempen leva em conta apenas o impacto da precificação sobre as empresas emissoras, mas não captura o benefício a ser apropriado pelas companhias que oferecem soluções climáticas.

A gestora alerta que, quanto mais esperarmos para aumentar os preços do carbono, mais severa a regulação terá que ser para ter o mesmo efeito em reduzir significativamente as emissões — e maior será o impacto no valuation das ações. “Os investidores não precisam esperar para ver a extensão de qualquer regulação de carbono antes de tomar qualquer ação.”

Hoje há 64 iniciativas regionais de precificação de carbono, que cobrem cerca de 21,5% das emissões globais, de acordo com números do Banco Mundial. Na maior parte dos esquemas, o preço está abaixo de US$ 30/t.

Na Europa, maior e mais longevo sistema de comércio de emissões, o preço do carbono atingiu € 50 por tonelada no mês passado pela primeira vez, fazendo com que o custo de poluir tenha mais que dobrado frente aos níveis pré-pandemia. 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) calcula que o patamar de US$ 75 por tonelada é a média global necessária para haja uma redução das emissões consistentes com o aumento de temperatura de até 2ºC previsto pelo Acordo de Paris.

“A maior parte dos países está atualmente bem abaixo deste nível e, com as economias desenvolvidas mais propensas a ter preços de carbono mais altos do que aquelas em desenvolvimento, esperamos que um aumento significativo nos preços do carbono seja necessário”, diz a Kempen.

O modelo da asset aponta que os mercados globais poderiam cair 4% se apenas os escopos 1 e 2 — que cobrem as emissões das operações diretas das companhias — entrassem num esquema de precificação US$ 75 mais caro.

Mas o tombo passaria a 20% se as emissões indiretas, associadas à cadeia de valor de fornecedores a consumidores, conhecidas com escopo 3, fossem incluídas. Em termos regionais, o estudo aponta uma queda de até 27% para as ações americanas, enquanto na Europa essa redução seria de 15,4%. 

(*Atualizado para corrigir a informação de que o estudo considerava um preço médio de carbono a US$ 75/t. Na verdade, o modelo aplica um aumento de US$ 75/t nos esquemas de precificação já em operação.)

(Crédito da imagem: Markus Spiske/Unsplash)

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