A nova aposta do BNDES: blended finance

“Estamos com a cabeça de alavancar o setor privado", diz a diretora de mercado de capitais e finanças sustentáveis, Natália Dias

A nova aposta do BNDES: blended finance
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Responsável por toda a captação de recursos do BNDES e pela gestão da carteira de R$ 64 bilhões da BNDESPar, o braço de investimentos do banco estatal, a diretora Natália Dias está convencida de que só existe um caminho para dar conta de financiar o desenvolvimento sustentável no volume e na velocidade que o mundo precisa: escalar o chamado blended finance

O blended finance – ou finanças híbridas – é, como sugere o nome, a mistura de capitais de diferentes naturezas. Em geral, recursos filantrópicos ou de organismos de desenvolvimento entram na estrutura financeira para absorver riscos e, com isso, alavancar a atração de recursos comerciais.

No ritmo atual de investimentos, diz, a agenda 2030 de desenvolvimento sustentável da ONU só será cumprida em 2086.

“Estamos com a cabeça de alavancar o setor privado. Na estratégia da área de mercado de capitais, estamos avaliando como o BNDES pode operar na falha de mercado; como eu uso instrumentos para fazer o crowd in [atração] do setor privado”, diz, em entrevista ao Reset

Quando assumiu a diretoria de mercado de capitais no início deste ano, já estava em curso uma primeira iniciativa, ainda relativamente pequena, da gestão anterior, que realizou a primeira chamada de blended finance do banco, para aportar R$ 90 milhões de recursos filantrópicos em bioeconomia, desenvolvimento urbano e economia circular. 

A ideia é que cada R$ 1 do banco alavanque ao menos R$ 3 de investidores tradicionais; e onze projetos foram selecionados.

“Estou debruçada sobre o assunto para completarmos essa chamada e, mais ainda, estudando como podemos escalar esse tipo de iniciativa.”

Os bancos de desenvolvimento, diz, ocupam um lugar estratégico no sistema por reunirem uma visão de política de governo a uma capacidade de acessar vários bolsões de liquidez, como fundos soberanos, family offices, grandes fundações globais e o mercado mercado bancário e de capitais tradicional.

Com experiência de 30 anos no mercado financeiro, Natalia Dias dirigia o sulafricano Standard Bank no Brasil quando aceitou o convite para migrar para o setor público. Sob seu comando, a tradicional diretoria de mercado de capitais recebeu o complemento de “finanças sustentáveis” no nome. 

Segundo ela, para deixar claro que tanto captação quanto alocação de recursos vão “incorporar aspectos ambientais, sociais e de governança no processo de tomada de decisão.”

Green bond 

Ainda no primeiro semestre, o BNDES deve fazer uma nova emissão de letra financeira verde no mercado local, semelhante à operação realizada em 2020 com o intuito de incentivar os bancos privados. 

Inicialmente, o banco chegou a aventar a possibilidade de uma captação verde no mercado externo, mas Dias diz que o plano deve ficar para o segundo semestre.  

“Recentemente, me reuni com investidores nos Estados Unidos e o mercado enxerga que o BNDES já atua nessa agenda e tem uma capacidade grande de originar produtos verdes para para alocação do portfólio”, diz ela. 

No entanto, a captação externa esbarra numa questão de custos (para internalização e swap), que a torna menos competitiva do que uma emissão doméstica. “Não quer dizer que desistimos da emissão internacional.”

De olho no mercado

Dias diz que o BNDES estará mais ativo para fazer captações no mercado, “porque não tem espaço fiscal nem apetite para se financiar só com recursos da União.”

“Uma agenda que a gente acelerou bastante foi a captação com os organismos multilaterais, que também estava parada.”

Há um pipeline de US$ 4,5 bilhões, segundo ela. 

Desses, uma parte já foi anunciada. Quase US$ 1,3 bilhão com o China Development Bank, em duas tranches – uma para financiar pequenas e médias empresas e outra para financiar infraestrutura e transição energética em setores prioritários para China e Brasil. 

“Também conseguimos a aprovação de uma garantia soberana para uma emissão de US$ 750 milhões com o BID, para financiamento de pequenas e médias empresas”, diz.

Diversidade

Dias é hoje uma das quatro mulheres diretoras do BNDES, que pela primeira vez tem quase uma paridade de gênero na alta cúpula: são cinco diretores homens. Na gestão anterior, a diretoria inteira era do sexo masculino. 

Uma das coordenadoras do grupo de diversidade do banco, Natalia Dias diz que essa será uma agenda transversal para todas as ações do banco.

Há duas semanas, foram aprovados no conselho do banco critérios de diversidade na indicação de conselheiros das empresas do portfólio do BNDES, diz. 

Até então, não existia uma política nesse sentido e a ideia é evoluir no tema. “Num primeiro momento, é difícil você colocar uma meta clara, mas a gente vai buscar ter sempre uma indicação de pelo menos uma mulher e um outro representante de uma parcela minorizada. Buscando a paridade no médio prazo.”

Em duas chamadas públicas recentes para gestores de fundos e startups, o banco também estabeleceu critérios de diversidade. Numa seleção de fundos de capital semente para pequenas e médias empresas, as gestoras que tiverem times diversos receberão pontos extras. 

Na mais nova edição do BNDES Garagem, que seleciona startups de impacto para aceleração, aquelas geridas por mulheres ou que solucionem desafios do universo feminino também receberão pontos extras. “É algo que se soma ao foco geral do programa, que é impacto socioambiental e diversidade regional de raça.”

Ela diz que a diversidade étnica-racial também está no foco. “Temos um número muito pequeno de funcionários do BNDES autodeclarados negros. Queremos ter um olhar estratégico para essa questão.” 

Participação em conselhos e Petrobras

A nova gestão do banco também pretende ter uma presença mais ativa nos conselhos de administração das empresas investidas, mas não necessariamente via engajamento em torno de pautas específicas. 

“Quando fizemos uma análise do portfólio da BNDESPar, vimos que o banco não maximiza os poderes políticos nas empresas. Existem empresas em que temos dois conselheiros e podemos chegar a três se pedirmos voto múltiplo.”

No caso da Petrobras, em que o BNDES tem uma fatia de 8%, Dias diz que a diretoria do banco “vê com com muito bons olhos o fato de a nova administração estar falando em transformar a Petrobras numa empresa de energia, e não uma empresa de petróleo e gás.” 

“Como acionista, vemos que isso vai gerar valor para a companhia”, diz ela. 

Conforme já anunciado, estatal e banco formaram um grupo de trabalho que vai discutir, entre outras coisas, o novo planejamento estratégico da empresa, que deve ser finalizado em junho. “Estamos vendo como o BNDES pode apoiá-lo, tanto com o chapéu de acionista como de credor, para financiar os projetos.”