A Nokia (lembra dela?) lança um celular por assinatura

Serviço da pioneira dos celulares vai recompensar os clientes que ficarem mais tempo sem trocar de aparelho

Logotipo da finlandesa HMD Global, dona da marca de celulares Nokia
Compartilhar

A Nokia, quem diria, continua viva. De volta ao seu país de origem depois da fracassada aquisição pela Microsoft, a finlandesa pioneira dos telefones celulares apresentou há uma semana um serviço intrigante, que aponta um futuro possível – e de apelo sustentável – para os eletrônicos de consumo.

Três novos smartphones e um tablet fazem parte de um programa de assinatura batizado de Circular. A maneira mais fácil de entendê-lo é como um programa de assinatura.

Por um valor mensal que fica entre US$ 12 e US$ 29, dependendo do modelo, o cliente ganha o direito de usar o aparelho. Na hora de fazer um upgrade, o celular ou tablet volta para a fabricante.

A HMD Global, há seis anos dona da marca Nokia, pode então alugá-lo novamente, reciclar os componentes ou doá-lo para uma instituição de caridade.

 

Mas o programa tem uma característica peculiar. No momento da reciclagem, o consumidor recebe pontos, chamados “sementes do amanhã”, que podem ser usados para ações de impacto socioambiental, como o plantio de árvores ou a instalação de redes celulares em regiões pobres.

Quanto maior o tempo de uso do celular, mais pontos são concedidos. O esquema foi pensado para “recompensar os clientes por fazer algo que eles já queriam fazer de um jeito ou de outro”, afirmou em entrevista Adam Ferguson, diretor de produtos da companhia.

O custo da sustentabilidade

Reduzir o lixo eletrônico, porém, tem preço. Quem assinar um Nokia X30 5G e ficar com o aparelho por três anos pagará cerca de 1 080 euros em mensalidades. Comprar um X30 custa a metade disso.

Ferguson afirma que a matemática é um pouco diferente. O “celular como serviço” inclui consertos e dois smartphones de reposição em caso de perda ou roubo.

Além disso, depois dos primeiros três meses os clientes podem trocar de plano (tanto para um mais caro quanto para um mais barato) ou então desistir.

A ideia é que cada aparelho tenha o uso mais prolongado possível, por isso o incentivo na forma de pontos. Mas, diferentemente de um programa de leasing, por exemplo, o cliente nunca passa a ser propriedade do cliente.

Esse é um dos grandes desafios da economia circular no caso de eletrônicos de consumo. Por um lado, eles têm valor de revenda, ou podem ser doados a algum parente ou amigo.

Mas, para os aparelhos no fim da vida útil, a reciclagem é complexa, custosa e em muitos casos inconveniente. Sendo sempre a dona dos smartphones, a HMD pode garantir que todos os seus produtos terão destino adequado.

iPhone de aluguel?

Há algum tempo especula-se que a Apple irá lançar um programa de assinaturas para o iPhone. A expectativa foi frustrada mais uma vez no anúncio dos modelos deste ano, que aconteceu na quarta-feira.

A ideia seria mais ou menos a mesma por trás do programa da Nokia, mas o público-alvo não poderia ser mais diverso. No primeiro caso, o motivador principal seria a preocupação com a sustentabilidade.

No caso da Apple, o apelo maior seria para os consumidores que fazem questão de usar a tecnologia mais recente. (Nos países ricos, o usuário de iPhone faz upgrade a cada três anos, na média.)

Em ambos, porém, o resultado final seria o mesmo: a vida útil dos aparelhos seria estendida e haveria uma redução potencial do lixo eletrônico e da demanda por metais raros.

No evento desta semana, a Apple repetiu sua meta de atingir até 2030 a neutralidade nas emissões de gases de efeito estufa associadas a seus produtos.

Mas, num modelo de vendas, não há como garantir a reciclagem adequada dos Macs, iPhones e iPads. Nos últimos anos, a empresa vem reforçando as campanhas para a entrega de usados como parte do pagamento de produtos novos.

Junto com o anúncio do iPhone 14, a Apple mencionou números de seu programa de trade-in. No ano passado, foram recuperados 1 milhão de toneladas de circuitos integrados e componentes de câmera e o equivalente em cobre e ouro ao resultado da mineração de 2 mil toneladas de rocha.

“Não jogue fora seu iPhone velho ou o deixe esquecido numa gaveta”, disse Kaiann Drance, vice-presidente de marketing da Apple. “Leve-o a uma loja ou então nos envie pelo correio.”

Com 1,4 bilhão de novos celulares vendidos anualmente, porém, esse tipo de apelo à boa vontade dos consumidores não deve fazer muita diferença nas montanhas de lixo eletrônico.

A estimativa mais otimista indica que nem sequer 20% dos celulares são reciclados corretamente. Isso significa uma demanda constante por minérios como o cobalto, que muitas vezes vem de minas com condições de trabalho terríveis na República Democrática do Congo.

“Juntos podemos fazer a diferença, um passo por vez”, afirmou a executiva da Apple na apresentação de quarta-feira. Em termos de sustentabilidade, andar pode não ser mais o suficiente: é preciso correr.

Leia mais

A melhor cobertura de negócios e finanças sustentáveis

Contribua com o Reset e ajude a construir a mudança.