A lição da Nobel Esther Duflo para os investidores de impacto: medir, medir e medir

Compartilhar

O Nobel de Economia que laureou a francesa Esther Duflo e dois colegas em 2019 foi acima de tudo um reconhecimento da validade de se conduzir experimentos de campo para medir o resultado de políticas de combate à pobreza.

Duflo e os colegas Abhijit Banerjee (também seu marido) e Michael Kremer se destacaram por importar do mundo da medicina e incorporar ao campo econômico a técnica de ensaios clínicos randomizados.

De forma simplificada, um sorteio define o grupo que receberá a intervenção proposta, como uma transferência de renda, e o grupo que não receberá. Da comparação entre os resultados alcançados, é possível concluir se a política de combate à pobreza aplicada alcançou os objetivos desejados ou não.

As conclusões do trio, destacou o júri do Nobel, melhoraram dramaticamente a capacidade prática de se combater a pobreza.

 

Ao falar na Expert, evento da XP Investimentos, Duflo fez uma analogia entre esse trabalho e os investimentos de impacto, que classificou com um work in progress.

“O investimento de impacto está muito próximo do que era o mundo das políticas 20 anos atrás, quando começamos nosso trabalho. Ou seja, não se sabe o que de fato terá um impacto social significativo no futuro ou não.”  

E ela deu um conselho para investidores interessados em impacto social ou ambiental: ser muito disciplinado na mensuração do impacto e na avaliação do que efetivamente constitui impacto.

O rigor, entretanto, não deve inibir a ação.

“É preciso começar de algum lugar e o melhor que o investidor pode fazer é separar parte do seu orçamento para entender o que as pessoas já testaram. E isso pode te dar um portfólio de projetos para escolher.”

Outra parte do orçamento, disse, deve ser destinada a financiar avaliações de impacto em setores do interesse desse investidor em particular e que podem se converter em oportunidades no futuro.

Mas, alertou, ao financiar essas investigações, é preciso estar consciente de que as evidências produzidas serão úteis a outros investidores também. “Ou seja, aceitando o fato de que haverá externalidades positivas para a sua concorrência.”

Ela citou como exemplo a corrida atual para se organizar a volta de trabalhadores à rotina de trabalho de formas que reduzam os riscos de contágio. “Há várias formas de se investir nisso e algumas vão funcionar melhor que outras. Uma vez que se conclua qual a melhor forma, é possível lucrar com isso e também fazer bem ao mundo.”

Duflo defendeu que investidores preocupados com questões como a pobreza e a desigualdade social se perguntem se há algo que devam evitar totalmente. “Existem coisas nas quais eu não deva investir porque simplesmente não são boas para o mundo?”

E citou como negócios a serem evitados aqueles que são poluentes ou que tratem mal as pessoas. O mais difícil, disse ela, é tomar a decisão de privilegiar os investimentos que fazem o bem, aqueles com impacto social.

LEIA MAIS

A Letrus quer ensinar os brasileiros a se expressar — com a ajuda de um Nobel

A melhor cobertura de negócios e finanças sustentáveis

Contribua com o Reset e ajude a construir a mudança.