A hora e a vez do banqueiro ‘que abraçava árvore’: “O ponto é financiar a transição”, diz Fábio Barbosa

 

Fosse Fábio Barbosa um homem rancoroso, o grande tsunami ESG (ambiental, social e de governança, na sigla em inglês) que tomou conta da agenda de empresas e investidores nos últimos meses poderia ensejar um sonoro: ‘Eu avisei’.

O ex-presidente do Banco ABN Amro, do Santander e da Febraban já foi considerado um banqueiro ‘soft’ por começar a defender, 20 anos atrás, uma agenda de sustentabilidade, quando a maioria dos empresários e investidores revirava os olhos para a integração de questões ambientais e sociais aos negócios.

Mas o mundo dá voltas.

Só nos últimos 45 dias, participou de 21 lives sobre ESG e temas correlatos e foi chamado a opinar em quase uma dezena de conselhos de administração.

Nesses últimos, a grande angústia das empresas é saber se a onda é passageira ou veio para ficar. “Tenho dito que isso é irreversível e uma tendência crescente”, diz Barbosa, que hoje preside o conselho da Endeavor e está nos conselhos de Itaú Unibanco, Natura e Hering, além de ser sócio da Gávea Investimentos.

Em conversa com o Reset, Barbosa diz que o papel dos bancos, assim como dos fundos de investimento, é crucial para direcionar os recursos da sociedade e “forjar um mundo mais ‘a’, ‘b’ ou ‘c’”. Embora reconheça que o sistema financeiro pode ir além do que tem feito, é contra movimentos abruptos de retirada de recursos para determinadas empresas ou setores. “O ponto é financiar a transição.”

Você abriu o caminho da sustentabilidade “na peixeira” no país. Agora, a onda ESG está grande. Como você vê esse movimento ganhando força finalmente, depois de tanto tempo nessa estrada?

[Risos] Faz 20 anos que a gente começou a trabalhar com isso por volta de 1999 e 2000. Na época, havia uma pressão dizendo que isso era bobagem, e eu era visto como o banqueiro dos verdes, que abraça árvore. Tinha uma certa ridicularização, de ser muito ‘soft’. Isso me incomodava porque eu acreditava que esse seria o caminho.

Fui vendo uma certa evolução, nunca voltou para trás, mas andou muito lentamente. Não quero associar [a aceleração] à pandemia, acho que foi antes. De uns três a quatro anos para cá, o assunto começou a esquentar. Em 2019 tivemos o Larry Fink, o Business Roundtable, Davos e as manifestações começaram a crescer e ganharam tanta força. Tanto que fiz 21 lives nos últimos 45 dias. Só hoje tive 3 convites para isso.

Vejo uma mudança geracional: a cada dia se aposenta um que achava que aquilo era uma bobagem e entra no mercado de trabalho um que acha que é importante. É gradual e vai ganhando ritmo. Acho que a questão ambiental começou a ficar muito séria.

A questão da inclusão social ficou séria e viável de se resolver com novas tecnologias. A governança, a transparência, também ganhou com tecnologias e tudo isso deu um empurrão. Vejo com satisfação e vejo que muitas pessoas que trabalharam no banco acabaram sendo sementes que germinaram em outros terrenos. E daquela conversa de banqueiro verde, que todo mundo achava uma bobagem, agora as pessoas acham que era por aí mesmo.

O que fez acelerar tanto?

Os investidores começaram de fato a cortar seus investimentos. Começa a ter uma pressão que chega ao Brasil, vinda de fora, pelo canal de investimento. No Brasil a coisa pega fogo, com as empresas correndo atrás para mostrar aos investidores que atendem aos critérios exigidos. Os fundos de investimento daqui também perceberam que não conseguem mais captar dinheiro lá de fora se não se adaptarem. E o consumo de produtos também. Compradores de soja querem saber de onde vem o produto. A [rede de supermercados britânica] Tesco suprimiu a compra de carne de um frigorífico brasileiro porque não conseguia saber a origem do produto. É uma onda que veio de fora para dentro.

E você consegue fazer um diagnóstico de onde está o Brasil e quais os pontos para evoluir de fato?

Vou falar de país e depois de empresas. No país, a grande questão é a atitude com relação a meio ambiente, mais especificamente a Amazônia. Tem dois problemas acontecendo. Um deles é a narrativa. Não estamos sendo capazes de explicar o que acontece e fica uma sensação de que toda a soja e toda carne exportadas pelo Brasil vêm de áreas desmatadas. O que, obviamente, não é verdade.

O Brasil fala coisas erradas, como “é assim mesmo, tem que ter desenvolvimento”. Estamos perdendo na narrativa e isso é relativamente fácil de melhorar. O segundo ponto são os erros que efetivamente acontecem, que é o desmatamento indevido, a ilegalidade em operações de exploração de madeira, de ouro etc. O incentivo retórico levou as pessoas a fazerem mais, mas também existe a ilegalidade.

Quando se olha para as empresas, muitas já faziam, mas não achavam importante e não faziam de forma estruturada. Não têm uma história para contar, metas, monitoramento. Começo a ver que as empresas estão se estruturando para poder mostrar. Temos empresas que já fazem isso bem, mas que agora começam a ver isso como um grande ativo. Papel e celulose é um exemplo.

As empresas param de olhar isso como uma obrigação, uma área a ser mantida ali no canto, para entender que a sua estratégia de negócios dependerá disso. Que tipo de energia vai produzir ou utilizar? Que tipo de embalagem vai utilizar? Que tipo de consideração terá pela questão da diversidade ou da transparência na relação com os vários públicos. Isso tudo passa a ser estratégico.

Antigamente as áreas de sustentabilidade eram quase sempre ligadas à de comunicação, ou seja, muito voltadas ao público externo.

Exatamente, essa é a grande mudança. A área era ligada a recursos humanos ou a comunicação. E agora começam a olhar de forma estratégica. Num terceiro momento a área deixará de existir porque o conceito estará incorporado.

As empresas brasileiras começam a tirar isso do cantinho?

Seja por convicção, conveniência ou constrangimento, o fato é que todas estão se movendo. Tem empresas fazendo duas páginas de jornal para falar de metas de rastreabilidade, uso de água, desmatamento. Fazem porque entenderam que esse é o caminho. O Brasil tem um problema e as empresas têm procurado se distanciar da imagem do país. Aquele manifesto assinado por várias empresas há algumas semanas foi para dizer que não endossam a postura do governo.

Você tem sido chamado pelas empresas para falar de ESG. Como é isso?

Fui falar em vários conselhos de administração sobre essa nova tendência. Eu não sou ambientalista ou de ONG, e aqui não vai demérito algum, mas sempre trabalhei em banco e isso traz uma visão mais voltada para o negócio, mais pragmática e menos idealizada. A grande preocupação dos conselhos com os quais tenho falado é se isso é uma coisa de curto prazo, que daqui a pouco acaba, ou se é de longo prazo. E tenho dito que isso é irreversível e uma tendência crescente.

Os conselhos querem saber se precisam mesmo fazer alguma coisa ou se é só esperar a onda passar.  

Exatamente. E então entendem que faz parte do negócio. Sempre procuro olhar o lado da oportunidade e não do medo. Há muitos novos negócios. O negócio da GE de geração de energia eólica e solar é gigante hoje em dia. Claro que tem que olhar o risco de que seus produtos deixem de ser aceitos pelos compradores também.

Você fez sua carreira em bancos, presidiu a Febraban e bancos importantes no país. Qual o papel dos bancos nesse cenário?

Bancos e fundos na verdade têm papel semelhante, de direcionar a poupança. Estava lendo uma matéria que dizia que nos Estados Unidos as pessoas se preocupam muito com o consumo de água, se estão evitando o consumo de plástico, se estão comendo alimentos saudáveis ou usando energia fóssil. Mas ainda se preocupam pouco em relação ao direcionamento do seu dinheiro.

São os bancos e fundos de investimento que pegam o seu dinheiro e colocam em atividades ‘a’, ‘b’ ou ‘c’ e forjam um mundo mais ‘a’, ‘b’ ou ‘c’. Mas o que acho legal e democrático é que os bancos vão seguindo o que a sociedade quer. Quando eu comecei a falar disso, havia pouca gente que queria isso.

Hoje, todos os bancos já têm filtros em sustentabilidade há bastante tempo e perceberam que as empresas que melhor pontuam em ESG representam menor risco. Bancos e fundos não querem risco e querem retorno sobre o capital investido. Olha o que aconteceu com a energia. Todo mundo achava que ia demorar, que era caro e de repente todo mundo está comprando energia limpa e quem produz energia com base em carvão e combustível fóssil tem um problema hoje. E a tecnologia também está vindo para ajudar.

Os bancos aplicam muitos filtros e barram algumas operações. Mas existe financiamento abundante para indústrias poluentes, como de petróleo e siderurgia, ou empresas que tiveram problemas ambientais e sociais. Os bancos podem ter um papel mais ativo para direcionar a economia como um todo?

A resposta é sim. Mas também tem que ser algo gradual. Eu tinha muita discussão com um investidor americano que diz que o fundo não pode colocar nada na indústria de petróleo e eu dizia: você não quer colocar nada nessa indústria, mas você quer sair na rua e abastecer o seu carro no posto Shell.

Você não quer colocar o seu dinheiro, mas quer que as casas nos Estados Unidos tenham aquecimento no inverno. A ideia de uma ruptura imediata não dá certo. Acredito que tem que ter metas para começar a resolver esse problema. O ponto é financiar a transição.

Os três grandes bancos privados divulgaram um plano para financiar o desenvolvimento sustentável da Amazônia. É suficiente?

Nada é suficiente. Mas tudo é um passo na direção certa. Agora os bancos estão falando: bom, precisamos fazer alguma coisa para financiar o desenvolvimento sustentável da Amazônia para ter alternativas diferentes da atual, que é queimar a floresta para criar boi.

Os bancos, entendendo que a situação do Brasil requer muito cuidado, muita atenção ao que está sendo falado lá fora pelos investidores e pela imprensa, se posicionaram. Querem acabar com essa imagem, porque está prejudicando demais o Brasil. Os empresários se reuniram porque perceberam que os seus negócios estão sendo prejudicados. Por convicção, conveniência ou constrangimento, se mobilizaram.

A questão é se a velocidade das mudanças vai casar com a necessidade do planeta.

Agora estou mais otimista porque está melhorando mais rapidamente. Se é na velocidade necessária, eu não sei. Mas que o assunto tomou conta, tomou.

Os incentivos de quem está no mercado estão atrelados a resultados financeiros de curto prazo. Para o ESG de fato ditar a agenda, não deveria estar nas metas de remuneração dos profissionais, por exemplo?

Muitas empresas já começaram a incorporar metas de ESG na avaliação de performance dos executivos. Mas mais importante é o conceito de que o ESG veio para ficar e que a própria perenidade da empresa —  vendas, financiamento e atração de talentos — depende do foco na evolução desses aspectos, a cada ano, e que negligenciá-los pode custar muito caro.

A onda ESG está forte também em investimentos, com produtos. Quais as virtudes e riscos de um movimento que vem com essa força, quando as pessoas não têm muita informação a respeito?

Tem dois riscos, nos dois extremos. Um é de se fazer muito ‘greenwashing’, de a empresa dizer que está fazendo coisas que não está fazendo. Como indústria automobilística europeia, que falsificava estatísticas do diesel, para dizer que estava limpo e não estava.

Do outro lado, está o fato de que os recursos na sociedade são escassos. Não podemos investir em projetos que não deem retorno para o acionista, é ruim para a sociedade. É importante fazer investimentos que deem resultados financeiros e olhem as questões ambientais, sociais e de governança. Isso é bem diferente de colocar dinheiro a fundo perdido. Dinheiro a fundo perdido é o da filantropia. É super bem-vindo, parabéns, mas é outra coisa. Estamos falando de investimentos rentáveis e que sigam esses filtros porque a sociedade está demandando. É “e” e não “ou”. E isso é chave.