A fantástica fábrica de chocolates da Amazônia (e o que você pode fazer para ajudá-la)

DeMendes e ReNature lançam crowdfunding para aumentar a compra de cacau de comunidades indígenas e ribeirinhas — e ampliar o impacto do chocolate amazônico

 
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Boa parte do chocolate que comemos contém cacau associado a desmatamento e péssimas condições de trabalho. 

Mas pertinho de Belém, em Santa Bárbara do Pará, há uma fantástica fábrica de chocolates que podem ser consumidos sem nenhuma culpa.

Em vez de espécies adaptadas e plantadas em monocultura, a Chocolates DeMendes usa como matéria-prima apenas o cacau nativo, ou “plantado por Deus”, como costuma dizer o fundador e chocolatier César De Mendes. 

Os fornecedores são indígenas e comunidades ribeirinhas, povos tradicionais da floresta, que colhem ou plantam o cacau em sistema de agrofloresta, aproveitando a sombra das árvores e a riqueza dos microorganismos da floresta para produzir um chocolate com ‘terroir’ amazônico. 

Longe de uma escala de Willie Wonka, a fábrica é pequena, artesanal. Mas impacta 3,5 mil pessoas diretamente — ampliando as oportunidades e reduzindo a influência de atividades como o garimpo e o desmatamento ilegal, o que ajuda a conservar milhares de hectares de floresta. 

“Essa ideia de que, para eu ter muito, preciso que muitos tenham pouco nunca bateu bem comigo. Por isso, sempre achei que dava para pagar mais [pelo cacau]  que o mercado pagava”, diz De Mendes, que chega a pagar quatro vezes mais que o valor de mercado pelo cacau amazônico. 

Agora, a DeMendes quer levantar capital para dar um salto e ampliar sua escala de influência. 

Às vésperas do Natal, lançou a campanha de crowdfunding #SaveMyChocolate em parceria com a ReNature, empresa de agricultura regenerativa que auxilia a fabricante de chocolate em algumas práticas de plantio. O objetivo é levantar até R$ 350 mil.

A meta inicial é de R$ 75 mil, que vai financiar a construção de cinco unidades de pré-processamento de cacau. Cada uma delas inclui estufa, galpão e infraestrutura de treinamento para as comunidades, que fazem a colheita, seleção, fermentação e secagem do cacau. 

Os recursos restantes serão usados como caixa para comprar amêndoa de cacau das comunidades e ampliar a produção. Cada R$ 30 em doações ajudam a DeMendes a comprar 1 quilo de cacau e contribuem para a preservação de 300 hectares de floresta. O crowdfunding se encerra em 22 de janeiro.

“Hoje, a empresa tem capital suficiente para rodar do tamanho que é. Mas tem um imperativo do tempo. As comunidades da Amazônia estão sob pressão, terras yanomamis sendo invadidas o tempo todo, garimpo ilegal, doenças, incêndios maldosos, criminosos. Não dá pra esperar. As consequências são terríveis para o planeta todo”, diz De Mendes. 

O chocolatier do mato 

Filho de mãe quilombola e pai ribeirinho, César De Mendes nasceu em Macapá (AP), mas ainda criança mudou-se com a família para Belém, de onde carrega as lembranças da avó fazendo suco de cacau e chocolate com o fruto colhido do pé. 

Fez carreira acadêmica na área de química e engenharia química, com cinco especializações e dois mestrados. Até que um trabalho de consultoria o levou de volta às origens. 

A serviço da prefeitura local, foi parar em Medicilândia, a cidade que mais produz cacau no Pará — por sua vez, o maior Estado produtor do Brasil. Nos idos de 2009, decidiu, então, investir no óbvio: uma fábrica de chocolate. 

A empresa foi aos trancos e barrancos até que De Mendes teve um estalo. 

“Uma das coisas que me incomodava é que, embora o cacau fosse endêmico da Amazônia, nativo daqui, não conseguia achar uma identidade de cacau, de chocolate, com a Amazônia”, diz. 

Na busca da identidade do chocolate, encontrou a sua própria. Em 2012, vendeu a Amazônia Cacau e fundou a Chocolates DeMendes. Foi uma transformação completa de vida . Mudou-se para a Colônia Chicano, comunidade de ribeirinhos e quilombolas em Santa Bárbara, onde vivem 500 habitantes. 

“Com o tempo, eu comecei a perceber que eu tinha uma profunda identidade com essas comunidades e eles tinham uma profunda identidade comigo. Uma empatia que é imediata. Com o tempo, acabei meio que incorporando esses valores, modo de vida deles e trazendo esse DNA para o nosso trabalho. E isso vem fazendo parte da minha vida”, diz. 

Sabor da terra

Tão importante quanto o relacionamento com as comunidades, é o sabor do chocolate — uma obsessão que já lhe garantiu dois prêmios em festivais em Paris. 

“Sempre busquei uma excelência do sabor e notas especiais, que trouxessem uma identidade do território e da cultura das pessoas que moram nas proximidades da ocorrência do cacau”, conta De Mendes. 

As comunidades lhe fornecem quatro variedades endêmicas de cacau. Duas delas são relativamente comuns na região: o cacau Maranhão e o cacau Pará-Parazinho. Outra foi descoberta em uma das suas expedições na mata. 

Se embrenhando na divisa entre o Pará e o Amapá, em 2014, encontrou o cacau do Jari — identificado como espécie inédita e catalogada pela Comissão Executiva do Plano de Lavoura Cacaueira (Ceplac). Os yanomami de Roraima também lhe fornecem uma variedade diferente, mas que ainda não passou por análise genética. 

Mais que o tipo do cacau, as características de cada povo e cada território, marcado com as coordenadas geográficas impressas em cada embalagem, é que compõem o sabor.

“Cada produto está em dada região e cada região tem fatores que vão afetar o equilíbrio e gosto do chocolate que vem desse cacau: a disponibilidade de água, a incidência de luz, a característica do solo e a vegetação do entorno”, explica. 

“E vai acrescentar outra coisa, que é a cultura das pessoas que trabalham. Uma série de fatores que eles trazem consigo: as madeiras com que eles fazem o cocho, manuseiam, vai gerando outros fatores, e o modo como eles tratam. Tudo isso se traduz em sabor.”

A DeMendes produz nove tipos que recebem nomes das comunidades fornecedoras do cacau, a maioria feita apenas com chocoalte e rapadura. Cada barra de 50g custa R$ 18, com exceção do Yanomami, que custa R$ 50. A venda é feita pelo site da DeMendes e via Mercado Livre.

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