A estratégia do Quintessa para acelerar impacto via grandes empresas

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Fundado em 2009, o Quintessa começou a falar em negócios de impacto quando a prática ainda atendia pelo nome de “negócios sociais” e a ideia de unir lucro com resultado socioambiental em escala parecia papo de maluco.

Fast forward 12 anos, e o caso ilustra bem a máxima de que nada é mais poderoso que uma ideia cujo tempo chegou. 

Nascido como um projeto filantrópico de Leo Figueiredo, um dos fundadores da gestora de recursos Hedging-Griffo (vendida ao Credit Suisse), o Quintessa ganhou musculatura e se consolidou como uma das principais aceleradoras de startups de impacto do país, com mais de 250 empresas aceleradas e cases de sucesso que vão da Escola Mais, de ensino básico mais acessível, à Boomera, de reciclagem. 

Mas, já há alguns anos, a frente mais estratégica tem sido auxiliar empresas a montar seus programas de inovação aberta e selecionar startups para resolver alguns de seus desafios centrais ligados a impacto e sustentabilidade. É uma tendência que só vem se aprofundando com a agenda ESG.

A vertente consolidou a independência financeira do negócio, que não depende de doações desde 2016 — e permite inclusive que o programa próprio de aceleração, bastante personalizado e com acompanhamento próximo da empresa, caiba no bolso dos empreendedores. 

“No modelo atual, a frente de negócios de impacto é subsidiada e os empreendedores pagam num período muito maior do que o do programa”, diz a diretora Anna de Souza Aranha.

Agora, a empresa está trazendo para o mercado esse seu novo posicionamento, passando de “aceleradora de negócios de impacto” para “aceleradora de impacto”.

A mudança vai muito além da retórica:

“Hoje entendemos que temos um papel de agregação muito maior, propondo soluções mais sistêmicas e atuando junto a outros atores no ecossistema e não só os empreendedores”, afirma a diretora Gabriela Bonotti, que divide o comando da Quintessa com Souza Aranha. “É uma forma de multiplicar e dar escala ao nosso propósito”.

A virada de chave aconteceu de 2016 para 2017 e teve início com o Braskem Labs, o laboratório de inovação da Braskem, comandado pelo Quintessa. De lá para cá, a fila de programas ‘tailor made’ só cresceu e inclui gigantes como Ambev, BRF e CPFL. 

“As empresas sempre olharam impacto com a lente apenas da responsabilidade social e tinham dificuldade em unir essa esfera com os seus objetivos de negócio. A gente olha com mais profundidade para os desafios de cada negócio de uma forma que faça sentido para as empresas e para os empreendedores”, aponta Souza Aranha.

Além dos programas corporativos, o Quintessa oficializou também uma frente de parcerias voltada para institutos, fundações, family offices e demais organizações do ecossistema a se relacionarem com as startups e suas soluções de impacto, aliando filantropia com inovação. 

“Estamos saindo de uma posição só passiva, de receber a demanda das empresas e dos parceiros, para propor iniciativas que a gente entenda que mudam o jogo”, aponta.

Uma mão lava a outra

O programa de aceleração que deu origem ao Quintessa continua tendo papel crucial. Além das startups selecionadas anualmente, a aceleradora atua também na assessoria para captação de investimentos, normalmente para série A, com rodadas de R$ 2 milhões a R$ 10 milhões. 

“É crucial porque retroalimenta o ecossistema. A gente forma muito know-how no mercado pela nossa seleção própria. Quando a gente roda seleções para as empresas, mais de 80% das turmas são formadas por convite ativo nosso. Toda essa rede que a gente vai formando e selecionando gera um grande valor depois para os parceiros”, aponta Souza Aranha. 

A Recigases, uma startup que desenvolveu uma solução para regenerar o gás refrigerante (altamente poluente e usado em refrigeradores e aparelhos de ar-condicionado), é um exemplo de como as iniciativas são interligadas. 

O negócio, ainda em estágio bastante inicial, foi acelerado dentro do Braskem Labs, coordenado pela aceleradora. Depois, entrou no programa próprio do Quintessa, para aprofundar seu amadurecimento. No mês passado, foi selecionado para tocar um projeto piloto com a Ambev dentro do programa de aceleração 100+, também sob a batuta do Quintessa. 

A maior demanda por inovação aliada a impacto tem se refletido num forte crescimento. No começo de 2020, o Quintessa tinha 12 pessoas no time — e hoje está com 26. Em agosto, o pipeline tinha 12 negócios no programa próprio de aceleração e mais 12 programas em parceria com as empresas. 

Impacto com escala

As diretoras contam que, quando começaram a trabalhar mais com as empresas, enfrentaram algum ceticismo, inclusive de mentores e pessoas próximas. “Muita gente questionou se a gente não ia pensar só em receita e perder o propósito”, diz Bonotti. 

O que se provou foi o contrário. 

“Se trabalhamos com uma startup que reduz desperdício de alimentos, a gente faz ela crescer, passar de X para Y clientes, ampliando o impacto junto com o faturamento. Na hora em que eu entro na BRF e mobilizo a aceleração não de uma, mas de oito startups, colocando R$ 450 mil na mão delas para rodar as soluções, é um impacto muito maior”, exemplifica Souza Aranha. 

Na estrada há mais de 10 anos, elas têm um otimismo cauteloso com o “tsunami ESG” que atingiu as empresas: 

“A gente assistiu anos atrás a banalização da palavra aceleração. Acho que a gente corre o risco de ver uma segunda onda de banalização ao falar de impacto e ESG”, afirma a diretora. “Mas a grande maioria das reuniões, se não todas que a gente faz, vem de um lugar genuíno de as empresas querendo avançar.”

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