A energia nuclear tem lugar na transição energética?

A urgência da mudança climática, a guerra da Ucrânia e novas usinas menores e mais baratas revivem a discussão em torno de uma fonte de energia que causa controvérsias há 80 anos

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É difícil não notar a ironia: a guerra na Ucrânia, palco do maior acidente nuclear da história, o desastre de Chernobyl, talvez seja o melhor argumento em décadas a favor da energia atômica.

O conflito deu novo senso de urgência a planos ambiciosos de reduzir a queima de combustíveis fósseis, especialmente na Europa. Usinas solares e eólicas e tecnologias como o hidrogênio verde ganharam ainda mais importância.

Mas governos, reguladores e investidores cada vez mais olham para os reatores nucleares como parte da solução para um mundo sem emissões de gases de efeito-estufa.

O interesse nessa tecnologia controversa já vinha aumentando desde antes da invasão ordenada por Vladimir Putin, em boa medida por se tratar de uma fonte de fornecimento contínuo, diferentemente da eólica e da solar, com geração intermitente. Startups desse segmento receberam US$ 3,4 bilhões em aportes no ano passado, mais que a soma dos dez anos anteriores, de acordo com a empresa de pesquisa Pitchbook.

 

A França vai construir pelo menos seis novas usinas nucleares nas próximas décadas, parte do esforço do país de atingir a neutralidade de carbono até 2050.

Esses projetos poderão receber financiamento em condições especiais caso seja ratificada a classificação de investimentos da União Europeia que considera a energia nuclear uma fonte verde.

Desde a demonstração do primeiro reator nuclear, há 80 anos, a tecnologia inspira reações apaixonadas de temor e fascinação. Agora, à luz da segurança energética e da ameaça de uma mudança irreversível no clima do planeta, a discussão acontece em outro plano: o do pragmatismo e da inovação.

Um novo tipo de usina, menor e mais barato para construir e operar, pode ter papel importante na descarbonização – mas antes será necessário vencer a batalha da opinião pública e provar que essa versão miniaturizada merece os investimentos bilionários exigidos.

Questão de percepção

Das quase 20 mil mortes provocadas pelo tsunami que atingiu o Japão em 2011, somente uma foi causada pelo vazamento de radiação da usina nuclear de Fukushima.

Em comparação, uma análise da literatura científica feita pela ONU no ano passado concluiu que a poluição do ar causa milhões de mortes e de anos de vida saudáveis perdidos todo ano. A má qualidade do ar é “a principal ameaça ambiental à saúde humana”, conclui o levantamento.

Apesar disso, a Alemanha, país com a maior dependência da importação de gás natural russo, decidiu seguir em frente com o fechamento de suas últimas usinas atômicas, no final deste ano.

Para garantir que as casas tenham aquecimento no inverno e as indústrias sigam funcionando, o governo do país prefere estender a vida das termelétricas que queimam carvão além do prazo anunciado de 2030.

A postura estritamente antinuclear dos alemães, porém, é uma exceção.

O governo britânico decidiu colocar pequenos reatores modulares (também conhecidos como SMRs, da sigla em inglês) no centro de sua estratégia energética.  

A expectativa é que essas pequenas centrais nucleares elevem de 16% para 25% a participação da eletricidade de fonte nuclear na matriz energética do Reino Unido.

A aposta é estratégica em duas dimensões: além da segurança energética, o país quer se estabelecer como um grande fornecedor de SMRs para o resto do mundo.

24/7

A empresa por trás da iniciativa é a Rolls-Royce. A companhia submeteu para a aprovação dos reguladores britânicos um modelo de usina que se propõe a resolver os dois grandes problemas da energia atômica.

O primeiro é o custo. As usinas são instalações complexas, projetadas sob medida e construídas de forma quase artesanal, in loco. Não é raro que se passem 20 anos entre o início das obras e a produção do primeiro elétron.

A Rolls-Royce espera ter seu design aprovado em 2024. A ideia é que cada projeto leve apenas quatro anos para começar a produzir.

Parte da velocidade tem a ver com o tamanho. Os reatores ocuparão uma área equivalente a dois campos de futebol e produzirão algo como 470 MW, um terço da energia gerada por uma usina tradicional (e o mesmo que 150 turbinas eólicas de terra).

Partes inteiras da estrutura poderiam ser produzidas em fábricas e montadas no local, o que explica o “modular” do nome e representa uma enorme economia potencial.

A Rolls-Royce promete terminar a obra ainda mais rápido erguendo uma espécie de tenda sobre o canteiro de obras, evitando paradas por causa do mau tempo.

Em tese, a ideia é aproximar a geração de eletricidade do consumo, como fazem fazendas solares ou eólicas – mas ocupando uma área potencialmente menor e gerando energia para manter acesas as luzes de 1 milhão de casas, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Outras companhias propõem reatores ainda menores. Fundada em 2007, a americana NuScale Power tem um design de reator que produziria cerca de 80 MW de eletricidade.

100 mil anos

O segundo grande problema, ao lado do custo, é o que fazer com o lixo radioativo. Dos 38 milhões de toneladas de dejetos radioativos produzidos nas últimas décadas, 7,2 milhões ainda precisam encontrar um destino definitivo, ou ao menos seguro o bastante pelas próximas dezenas de milhares de anos.

A Rolls-Royce diz ter encontrado uma solução também para isso: ele será enterrado e guardado nas próprias instalações da usina.

A companhia pretende ter em operação pelo menos 16 pequenas centrais nucleares na próxima década (cada uma a um custo estimado de US$ 2,4 bilhões).

Um complicador é que , dado o pequeno porte, essas usinas estejam mais próximas de centros urbanos, o que certamente vai colocar à prova a habilidade política dos responsáveis por convencer os vizinhos de que  o armazenamento dos dejetos é seguro.

Mas uma parte dos críticos dificilmente será convencida da necessidade de dar nova vida à energia nuclear. Paul Dorfman, presidente do centro de estudos Nuclear Consulting Group, disse que o mundo pode estar diante de um clássico problema do cobertor curto.

Quanto mais dinheiro investido nessas novas usinas, afirma ele, “menos sobra para o tipo de coisa que sabemos que funciona tanto em termos tecnológicos quanto práticos”.

O Greenpeace, que nasceu há 50 anos de um protesto contra testes de armas nucleares, aponta o problema dos dejetos radioativos, mas também fala da urgência.

“Não teremos nem mesmo um protótipo [dos SMRs] tão cedo”, afirmou o cientista-chefe da organização, Doug Parr. “Precisamos fazer grandes cortes de emissões até 2030, e os reatores pequenos não vão nos ajudar nisso.”

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